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O certo e o errado

O homem inventou o conceito de “certo ou errado”; mas afinal de contas, o que é certo e o que é errado? Isso é muito relativo.

Veja um exemplo simples… Em algumas culturas, um homem pode ter várias esposas, e isso é algo absolutamente normal, portanto é considerado “certo”. Na nossa cultura, ter mais de uma esposa é considerado bigamia (ou poligamia), que é um crime, portanto é “errado”. Então, pergunto, qual cultura está certa? A nossa? Por quê? Qual está errada? Está vendo como o conceito do “certo ou errado” é relativo?

Um outro exemplo banal… No supermercado, existe um caixa preferencial, destinado a idosos, deficientes físicos, gestantes e pessoas com criança de colo. Se você me perguntar se eu acho isso certo, eu diria que sim, em termos. Aquelas pessoas realmente precisam de um atendimento preferencial, mas veja bem; entre um idoso, um deficiente físico, uma gestante e uma pessoa com uma criança de colo, quem tem “mais” preferência? É difícil dizer, não é? Será que é certo ter um único caixa para todas essas pessoas? Seria errado separar um caixa só para idosos ou só para gestantes, por exemplo?

Outra coisa, imagine a seguinte situação: dois idosos estão na fila do caixa preferencial. O primeiro tem um carrinho lotado de mercadorias, o segundo tem apenas um pacote de pão e um pote de manteiga na mão. Agora, pergunto, do que adianta o segundo idoso estar na fila do caixa preferencial, sendo que o primeiro tem um carrinho cheio de compras para passar pelo caixa ainda? Isso vai demorar. Seria mais fácil o segundo idoso ir para a fila do caixa rápido, de 10 volumes, concorda? Então, voltemos à questão do “certo ou errado”… É certo ter um caixa preferencial que demora mais que um caixa rápido? Outra coisa, se aquele segundo idoso vai para o caixa rápido, teoricamente ele está tomando o lugar de uma pessoa que não é idosa. E aí? É certo isso? Ele não tem um caixa preferencial só para ele? O que ele está fazendo no caixa rápido? O mais “certo”, então, talvez, seria ter caixa preferencial comum e caixa preferencial rápido.

Você deve conhecer o caixa eletrônico do Banco24Horas que disponibiliza saques, saldos e extratos de mais de 40 bancos. Pois bem. Ultimamente, sempre que uso tal caixa, logo após passar o cartão, aparece uma tela, oferecendo-me um tipo de proteção que, na minha opinião, é no mínimo duvidosa. Eles oferecem um tipo de seguro contra uma possível clonagem do meu cartão, seguida por movimentações indevidas na minha conta, realizadas em qualquer caixa do Banco24Horas. Como assim? Eles juram que acham isso certo? Eu não acho. Eu não sou obrigado a pagar por um seguro desses! Eles é que têm que se virar para me proteger contra tal golpe. E se eu não aceitar o seguro (nunca aceitei) e o meu cartão for clonado? O culpado seria eu? Eu teria sido negligente? Quem me garante que o próprio Banco24Horas não clonaria meu cartão? Ele pode muito bem clonar meu cartão, roubar meu dinheiro, colocar a culpa em uma gangue qualquer e me acusar de negligência, não é verdade? Não estou aqui questionando os princípios éticos do Banco24Horas, muito menos tentando difamar o nome da instituição. Não distorçam minhas palavras. Estou apenas fantasiando uma hipótese, pois neste mundo, infelizmente, tudo é possível.

Existem pessoas que, por questões religiosas, não aceitam transfusões de sangue, porém aceitam transplantes de órgãos. Na minha leiga opinião, isso é meio paradoxal, não? Tais pessoas baseiam-se nas Escrituras Sagradas para justificar suas opiniões. OK, mas não seria, talvez, uma má intepretação de tais textos sagrados? Aliás, o que é certo e o que é errado quando se trata de interpretações? Pois nem todo texto dá margem para uma única interpretação.

Traição. A própria palavra já transmite uma ideia de algo errado. Toda vez que se fala em traição, menciona-se também a confiança. Esta, pelo contrário, transmite uma ideia de algo certo. Geralmente dizemos que traímos a confiança de alguém. Bem, significa, então, que se não existir confiança, a traição é aceitável? É isso? Vejamos… João dá dinheiro a José para comprar um objeto qualquer em algum lugar. João não confia em José, mas como ele mesmo não pode ir e não há outra opção, ele se vê obrigado a usar os préstimos de José. José pega o dinheiro, some com ele e nunca mais dá notícia. E aí? José traiu a confiança de João; mas como João já não confiava nele mesmo, José não traiu João. Certo? Ou errado?

Eu poderia continuar citando vários e vários outros exemplos, mas acho que não é necessário. Como podem ver, o conceito de “certo ou errado” é muito vago. É o mesmo que dizer que algo está perto ou longe. Perto ou longe de quê? De quem? É relativo. Exige-se um referencial.

O homem inventa suas leis, baseadas em conceitos também inventados por ele; e não há como saber se tais leis e conceitos procedem. Obviamente, o uso de senso crítico, lógica, matemática, sentimentos, não deixa de ser um fator determinante. Mas será que somos aptos o suficiente para criar tais regras e usá-las como modelos, diretrizes para a vida? Sei lá. Só sei que é algo muuuito complexo. Como diria o Sinhozinho Malta, “Tô certo ou tô errado?”

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CategoriasCrônicas, Português
  1. Regina Helena
    07/02/2011 às 12:27 pm

    A relatividade entre o Certo e o Errado é tamanha…
    Só os valores, como verdade, honestidade, ética(ah! esta tão sumida)…não mudam, mas certo e errado depende da vista do ponto e não do ponto de vista,não é?

  2. Cristiano R. Silva
    08/02/2011 às 3:50 pm

    É complicado discernir o que é certo e errado, pois cada pessoa tem seu ponto de vista e não existe uma regra geral para nortear as interpretações. Como você mesmo colocou, as proprias regras são criadas pelo homem e tenho certeza absoluta que nenhuma regra é unânime. O que é certo para mim, nem sempre é certo para o outro, porém para vivermos em sociedade, devemos tentar equilibrar as coisas, com regras fundamentadas na nossa cultura e nos principios éticos e morais para chegar proximo a um consenso. Infelizmente falar em ética e moralidade no Brasil é um pouco dificil, em virtude do que temos visto principalmente na nossa politica. Se cada um fizer a sua parte, respeitar as diferenças e fiscalizar aqueles que nos representam, poderemos conviver bem com todos os certos e errados.

  3. thiago
    17/12/2011 às 12:29 pm

    e ai bruno sou o thiago la do curso de ingles .
    os seus pensamentos sao bons.

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